Por: José Lino Teixeira on May 12, 2008 – 5:45 pm
Facturação ao segundo
A questão da facturação em telecomunicações sempre foi motivo de debate entre os operadores, agências reguladoras e associações de defesa de consumidores.
A facturação desde sempre foi feita com arredondamentos para cima, “prejudicando” os consumidores que por falarem segundos são obrigados a pagar o minuto completo. Até há pouco tempo atrás, pagava-se por uma chamada de 5 segundos o valor de um minuto. Neste momento em Cabo Verde a facturação é feita por períodos de 30 segundos, ou seja, paga-se 30 segundos por uma conversa de 2 ou 3 segundos, paga-se 1 minuto por uma chamada de 31 segundos, e assim por diante.
Para o consumidor, os arredondamentos para cima, ainda por cima nessa ordem de grandeza, são sempre vistos como prejudiciais,… e fica-se com a sensação que se está apagar mais do que se consome.
As agências reguladoras e as associações de defesa dos consumidores têm pressionado os operadores a mudar os periodos de facturação, argumentando que os arredondamentos feitos para cima não traduzem o real valor do serviço prestado, ignorando no entanto, que em telecomunicações o processo de estabelecimento duma chamada é o que custa mais. Há mais máquinas envolvidas, há comutadores que tem que ser accionados, há a questão da verificação do crédito, há a questão do roaming, há a verificação dos planos tarifários, há toda a sinalização necessária que tem um elevado custo em termos de recursos da rede para que uma chamada seja estabelecida, ou seja, até que o telefone toque. O “serviço” de dar um toque, para o qual não se paga nada, é um custo para os operadores que não podem nem devem cobrar por isso.
Exigir a facturação ao segundo, faz com que mais recursos sejam afectados desde o primeiro segundo e que todo o processo de verificação do crédito sejam feitos ao segundo, elevando a carga de processamento do sistema de billing para valores muito elevados, ou seja exigindo maquinas extremamente potentes para que não haja colapso do sistema.
Ora esse investimento, a ser feito, será repassado para o custo das chamadas, ou seja, quem vai paga-lás são os consumidores. Há casos por toda a Europa em que após a facturação começar a ser feita ao segundo o custo das chamadas aumentaram.
Portabilidade do Número
Um outro aspecto bastante discutido, exigido pelos consumidores e pelos reguladores, tem a ver com a questão de se poder manter o número de telefone ou telemóvel, mudando para o operador que oferece melhores preços. Seria optimo para todos poder manter sempre o mesmo número e ter a possibilidade de escolher e mudar para o melhor tarifário no melhor operador.
Esta é uma questão que também tem os seus custos e “complicações” para os operadores. Só para enquadrar o tema, vou resumir uma parte do processo de estabelecimento duma chamada, a que chamamos de B-Number analysis, que consiste na analise do número chamado para determinar em que rede se encontra esse número e encaminhar a chamada para o repectivo circuito que faz a ligação a central dessa rede. Por exemplo, ao analisar um número qualquer, se o número começa com 99, 98 ou 97, encaminha-se a chamada directamente para CVMovel, se o número começar po 91, encaminha-se directamente para T+. O B-Number Analysis é feito analisando o menor número de digitos que compõe o número de telemóvel, por forma a acelerar o processo de estabelecimento duma chamada e aliviar a carga de processamento nas centrais de comutação.
Com a portabilidade do número toda essa questão teria que ser revista, ou seja, o facto de se começar por 99 não implica que o número é da CVMovel, teria que se ter bases de dados e módulos na rede para manter os registos de todos os clientes tantos os residentes como os cujos prefixos são de outras operadoras, enfim a interação e troca de informação entre nós da rede e inter-redes seria enorme,…. e o custo disso tudo quem paga é o cliente final.
Perguntaram-me se é possivel manter o número e mudar de operadora? Sim é possivel mas nenhum operador está interessado em fazer isso. Não neste cenário actual em Cabo Verde. Quando o mercado começar a ser “selvagem”… aí sim os operadore terão que fazer pela vida e oferecer aos clientes todas as funcionalidades e serviços que possam marcar uma diferença em termos competitivos.
Acredito que estas duas questões, enquanto não forem obrigatórias pelos reguladores, nenhum operador, em mercados poucos competitivos está interessado em entrar nessa aventura.
Ainda há uma questão interessante quanto aos periodos de facturação. Por exemplo em Hóteis, aluguer de viaturas,…. porque não pagar à hora em vez de pagar ao dia? Neste caso também há um arredondamento para cima e paga-se mais do que se usufrui…
Esta questão de manter o número e mudar de operadora não devia depender das operadoras, os reguladores é que devem “obrigar” as operadoras a facilitar a mudança de rede por parte dos consumidores. Eu, por exemplo, não gosto de andar a mudar de número sempre que mudar de operadora.